Retirada de US$523 milhões em Lítio no Chile: Análise

Um sistema global de lítio em tensão: dependências estratégicas, contratos obscuros e contradições de controle

[BLUF] – De acordo com os documentos disponíveis, o panorama global da refinação de lítio é caracterizado por uma expansão produtiva na Europa, Austrália e Chile, mas os contratos de fornecimento permanecem fragmentados e não publicados, enquanto a dependência tecnológica da China se consolidou através de aquisições, licenças e condições regulatórias. Na Europa, os volumes anunciados superam as capacidades produtivas declaradas sem explicações públicas. Na Austrália e no Chile, os projetos estratégicos são gerenciados por empresas chinesas com tecnologias controladas por entidades estrangeiras, apesar das declarações de independência. O controle chinês sobre a cadeia de suprimentos parece sistemático, mas as modalidades de transferência tecnológica não são transparentes.

Parte I: Europa – Promessas sem cobertura

As refinarias europeias estão entrando em produção, mas os contratos de fornecimento com montadoras não foram tornados públicos de forma consistente. A Vulcan Energy firmou um acordo com a Stellantis para 81.000–99.000 toneladas de hidróxido de lítio em 5 anos, um volume superior a 300% da capacidade anual da refinaria de 24.000 toneladas. Não foi fornecida nenhuma explicação sobre como essa meta seja compatível com a produção real. Outro acordo com a Glencore cobre entre 36.000 e 44.000 toneladas em 8 anos, mas não está claro se é o único ou se existem outros não declarados. As refinarias da AMG Lithium, Mangrove Lithium e NESI-Vulcan iniciaram a produção em 2026, mas nenhum acordo de fornecimento específico com montadoras foi divulgado. A transparência sobre os contratos de fornecimento é escassa, e os volumes anunciados frequentemente superam as capacidades declaradas sem nenhuma explicação.

Parte II: Chile – Retiradas sem explicações, controle sem produção

A retirada da BYD e da Tsingshan dos projetos de produção de lítio no Chile deixou um vácuo estratégico. Os projetos, com um investimento combinado de 523 milhões de dólares e uma capacidade produtiva estimada em mais de 50.000 toneladas/ano, foram cancelados em 2025. Não está claro se os contratos com a SQM foram rescindidos ou simplesmente suspensos. O governo chileno declarou a intenção de reduzir a dependência externa, mas não apresentou um plano concreto para a refinação de lítio. A joint venture Codelco-SQM, lançada em dezembro de 2025, obteve o controle estatal sobre o Salar de Atacama até 2060, mas não foi especificado se a capacidade produtiva anteriormente prevista pelos projetos cancelados tenha sido substituída. O controle estatal não implica automaticamente uma produção ativa, e a capacidade perdida não parece ser coberta por novos projetos anunciados.

Parte III: Austrália – Independência declarada, controle chinês efetivo

A Kwinana Lithium Hydroxide Refinery, a primeira refinaria de hidróxido de lítio na Austrália, é gerenciada por uma joint venture entre a Tianqi Lithium (China) e a IGO (Austrália), com a Tianqi detendo 51% e o controle decisório sobre o financiamento. O projeto obteve uma licença para a produção válida até 2046, mas registrou um lucro líquido negativo de 28,7 milhões de dólares no trimestre de junho de 2025 e sofreu problemas mecânicos desde 2021. O governo australiano firmou um acordo estratégico com os Estados Unidos em 2025 para a segurança da cadeia de suprimentos de minerais críticos, mas não menciona projetos específicos de refinação de lítio. Outros projetos, como os da Pilbara Minerals e MinRes, envolvem empresas chinesas e tecnologias desenvolvidas na China, mas não está esclarecido quem detém a tecnologia operacional. A refinação de lítio na Austrália parece um sistema em que a dependência tecnológica da China é mantida, apesar das declarações de independência.

Parte IV: Chile – Autonomia declarada, dependência condicionada

O governo chileno anunciou uma estratégia nacional para o controle estatal da produção de lítio, mas não forneceu um plano concreto para desenvolver tecnologias de refinação independentes. A joint venture Codelco-SQM, aprovada pelo regulador antitruste da República Popular da China (SAMR) em 10 de novembro de 2025, foi condicionada à garantia de um volume mínimo de 300.000 toneladas de carbonato de lítio por ano para clientes chineses. O governo chileno não revelou se o HCR (hidróxido de lítio de carbonato) importado da China pela Codelco faz parte de um sistema integrado que poderia implicar dependência técnica a longo prazo. As exportações chilenas de carbonato de lítio para a China representam entre 45% e 70% do total entre 2021 e 2024, com um aumento significativo em relação a 24,8% em 2013. Apesar das declarações oficiais de autonomia estratégica, o governo chileno não apresentou um plano concreto para a refinação de lítio.

Parte V: Controle chinês sistemático, transparência nula

A Tianqi Lithium detém 23,77% das ações da SQM no Chile e 51% da mina de Greenbushes na Austrália, posicionando-se como um ator central na produção global de lítio bruto. O depósito de Atacama contém 1,7 bilhão de toneladas de lítio em equivalentes de carbonato (LCE), enquanto Greenbushes possui 2,1 bilhões de toneladas de LCE. De acordo com declarações oficiais chinesas, pelo menos 60% da capacidade de refinação não chinesa depende de tecnologias desenvolvidas na China. O Ministério do Comércio chinês atualizou o catálogo de tecnologias proibidas para exportação em 2025, incluindo processos de extração de lítio de salmoura, produção de carbonato e hidróxido de lítio, bem como tecnologias de purificação de soluções salinas e líquidos contendo lítio. O lucro líquido da Tianqi Lithium em 2025 foi de 463 milhões de yuans, com um aumento de 105,85% em relação a 2024. 40% do lucro foi atribuído aos lucros derivados da SQM, apesar da empresa ter anunciado a venda de 1,25% das ações da SQM até fevereiro de 2026. As modalidades de transferência tecnológica não foram tornadas públicas.

Contratos de fornecimento de lítio para a Europa: um panorama fragmentado e pouco transparente

O setor automobilístico europeu está construindo uma rede de refinarias de lítio fora da China, mas os contratos de fornecimento que garantem sua sustentabilidade permanecem parcialmente obscuros. Embora as montadoras declarem compromissos estratégicos, os detalhes quantitativos e temporais são frequentemente fragmentados ou não divulgados.

Stellantis: um contrato encerrado, investimentos em andamento

A Stellantis firmou um acordo de pré-compra com a Novonix (Austrália) para 86.250 toneladas mínimas e 115.000 toneladas de grafite sintética, com duração de 2026 a 2031. No entanto, o acordo foi encerrado em 2025, sem que a empresa fornecesse uma explicação. O contrato original previa o fornecimento de grafite para baterias, mas não está claro se se referia a uma refinaria específica ou a um projeto em desenvolvimento.

Paralelamente, a Stellantis investiu mais de 100 milhões de dólares na Controlled Thermal Resources (CTR) nos Estados Unidos para aumentar a capacidade de produção de hidróxido de lítio monoidratado de 25.000 para 65.000 toneladas/ano. O investimento foi anunciado como parte de um plano para garantir suprimentos estáveis, mas não foi divulgado se essa capacidade é coberta por um contrato de fornecimento específico.

Outro compromisso significativo é o investimento de 52 milhões de dólares na Vulcan Energy Resources para expandir a produção de hidróxido de lítio. O acordo prevê o recebimento de produtos de qualidade para baterias de veículos elétricos, mas não é especificado se se trata de um contrato de fornecimento ou de um investimento estratégico sem obrigação de compra.

Vulcan Energy: o ponto central do sistema europeu

A Vulcan Energy firmou um acordo vinculativo com a Glencore para fornecer entre 36.000 e 44.000 toneladas de hidróxido de lítio monoidratado (LHM) em um período de 8 anos. A refinaria na Alemanha, com capacidade anual de 24.000 toneladas, foi definida como a primeira aplicação comercial em escala de refino eletroquímico na Europa. O acordo com a Glencore cobre aproximadamente 18,75% a 22,9% da capacidade anual da refinaria.

O projeto em Frankfurter Höchst, com capacidade de 24.000 toneladas/ano, foi concluído e iniciou a produção em 2027. A Vulcan anunciou contratos de longo prazo com a Volkswagen, a Stellantis e a LG Energy Solution para fornecer hidróxido de lítio produzido a partir de fontes termais. No entanto, não foi divulgado se esses contratos cobrem uma porcentagem significativa da capacidade da refinaria.

Um acordo de fornecimento com a Stellantis prevê entregas de 81.000 a 99.000 toneladas de hidróxido de lítio em 5 anos, a partir de 2026. Esse volume supera em mais de 300% a capacidade anual da refinaria de 24.000 toneladas. Não foi fornecida nenhuma explicação sobre como essa meta é compatível com a capacidade de produção.

BMW: investimentos estratégicos, contratos não declarados

A BMW firmou um acordo de fornecimento de longo prazo com a Ganfeng Lithium (China) por 5 anos (2020–2024), cobrindo 100% das necessidades de hidróxido de lítio para as células de bateria de quinta geração. O acordo já foi concluído, mas não foi divulgado se foi renovado ou substituído por um contrato com um produtor não chinês.

O grupo firmou um acordo com a Mangrove Water Technologies (Canadá) para uma planta de refino de lítio com capacidade suficiente para produzir 500.000 veículos elétricos por ano, financiada com 85 milhões de dólares. No entanto, nenhum acordo de fornecimento específico com montadoras foi indicado. A planta foi inaugurada em 2026, mas não está claro se a produção já está em andamento ou em fase de testes.

A BMW também apoiou a abertura de uma refinaria comercial de lítio no Canadá pela Mangrove Lithium em 2026, com tecnologia eletroquímica. Não foi divulgado se a empresa firmou um contrato de fornecimento para o produto final.

Outros atores: AMG Lithium e NESI

A AMG Lithium iniciou a produção comercial de hidróxido de lítio em Bitterfeld em 2026 com capacidade de 24.000 toneladas/ano, suficiente para 500.000 baterias para veículos elétricos. Testes de materiais estão em andamento com fabricantes de células e montadoras, mas não foi divulgado se um contrato de fornecimento foi assinado.

A NESSI e a Vulcan iniciaram a construção de uma refinaria de lítio com capacidade de 24.000 toneladas/ano na Alemanha em 2026. A planta foi apresentada como a primeira aplicação comercial em escala de refino eletroquímico na Europa, mas nenhum acordo de fornecimento com montadoras foi indicado.

Comparação entre volumes e capacidade

Refinaria Capacidade anual (toneladas) Contrato de fornecimento Volume anual previsto Fonte
Vulcan Energy (Frankfurt) 24.000 Stellantis (2026–2030) 81.000–99.000 toneladas totais em 5 anos InsideEVs
Vulcan Energy (Frankfurt) 24.000 Glencore (2026–2034) 36.000–44.000 toneladas totais em 8 anos EQS News
Mangrove Lithium (Canadá) Não especificado Não declarado 500.000 veículos elétricos/ano Mining.com
AMG Lithium (Bitterfeld) 24.000 Não declarado 500.000 baterias/ano Handelsblatt
NESI-Vulcan (Alemanha) 24.000 Não declarado Não especificado Mining Magazine

O volume total de hidróxido de lítio previsto pela Stellantis na Vulcan Energy supera em mais de três vezes a capacidade anual da refinaria. Não foi fornecida nenhuma explicação sobre como essa meta é compatível com a produção real. O contrato com a Glencore cobre uma parte significativa da capacidade, mas não está claro se é o único ou se existem outros não divulgados.

As refinarias europeias estão entrando em produção, mas os contratos de fornecimento com montadoras não foram divulgados de forma consistente. Embora as montadoras declarem compromissos estratégicos, os detalhes quantitativos, a duração e a cobertura da capacidade permanecem em grande parte não especificados.

A produção de lítio na Europa está em andamento, mas a transparência sobre os contratos de fornecimento é escassa. Os volumes anunciados frequentemente superam as capacidades declaradas, sem que qualquer explicação tenha sido fornecida.


A retirada da BYD e da Tsingshan dos projetos de produção de lítio no Chile deixou um vácuo estratégico no plano de abastecimento global de matérias-primas para baterias. Os dois grupos chineses haviam assinado acordos preferenciais com a Corfo em 2023 para receber carbonato de lítio da SQM, o segundo maior produtor do mundo, a preços com desconto até 2030. O acesso a esses suprimentos havia sido apresentado como fundamental para garantir a cadeia de suprimentos de novos empreendimentos de produção de baterias no Chile, com um investimento combinado estimado em 523 milhões de dólares.

As operações canceladas incluíam uma planta de 290 milhões de dólares para a produção de cátodos de lítio e um projeto de 233 milhões para a produção de fosfato de lítio ferroso (LFP) de 120.000 toneladas/ano. No total, os projetos teriam adicionado mais de 50.000 toneladas/ano de capacidade de processamento ao mercado global, com um impacto direto em cerca de 1.200 empregos. No entanto, não está claro se os contratos de fornecimento com a SQM foram formalmente rescindidos ou simplesmente suspensos. O documento da Corfo não especifica a natureza jurídica da retirada nem a duração restante dos acordos.

A retirada foi motivada pela queda dos preços do lítio, mas não foi explicado por que os dois grupos escolheram abandonar projetos com acesso garantido a matérias-primas a preços preferenciais. Embora a BYD tenha anunciado a intenção de se retirar de ambos os projetos, não forneceu nenhuma declaração sobre o status dos contratos com a SQM. Em vez disso, a empresa firmou um acordo exclusivo com a Lithium Australia para a reciclagem de baterias na Austrália, com um prazo inicial de três anos e cobertura de todas as baterias no fim da vida útil dos carros elétricos da BYD naquele país. Isso marca uma mudança de estratégia: de uma abordagem baseada em novas refinarias no Chile para um modelo de reciclagem local na Austrália.

O contraste entre as duas abordagens é evidente. Enquanto no Chile os projetos foram cancelados sem explicações públicas, na Austrália o acordo foi divulgado com detalhes específicos. O fato de a BYD ter escolhido investir em reciclagem em vez de nova produção em um país com recursos estratégicos como o Chile levanta questões sobre as prioridades de abastecimento. A reciclagem na Austrália cobre apenas o mercado local, enquanto os projetos no Chile poderiam ter alimentado uma cadeia de valor regional mais ampla.

A joint venture NovaAndino Litio, lançada pela Codelco-SQM em dezembro de 2025, assumiu um papel central na tentativa de manter o controle estatal sobre o Salar de Atacama até 2060. O projeto foi apresentado como uma resposta à retirada da BYD e da Tsingshan, mas não está claro se já assumiu a capacidade de produção anteriormente prevista pelos projetos cancelados. O controle estatal não implica automaticamente uma capacidade de produção equivalente, e não é conhecido se os novos investimentos são capazes de cobrir o vazio deixado pelos projetos chineses.

Projeto Investimento Capacidade anual Acordo com a SQM Status
Produção de cátodos de lítio US$ 290 milhões Não especificado Sim, até 2030 Cancelado
Produção de LFP US$ 233 milhões 120.000 toneladas Sim, até 2030 Cancelado
Acordo com a Lithium Australia Não especificado Não especificado Não Em andamento

A retirada da BYD e da Tsingshan deixou sem explicação uma ampla porção de capacidade de produção não utilizada. O controle estatal sobre o Salar de Atacama não garante automaticamente uma produção ativa. A capacidade de produção perdida, estimada em mais de 50.000 toneladas/ano, não parece ter sido substituída por novos projetos anunciados. O mercado global perdeu uma oportunidade de diversificação, enquanto o Chile perdeu uma importante fonte de investimentos diretos e empregos.


A Refinação de Lítio na Austrália: Um Sistema de Dependência Tecnológica e Contradições Estratégicas

A Kwinana Lithium Hydroxide Refinery, a primeira refinaria de hidróxido de lítio na Austrália, é administrada por uma joint venture entre Tianqi Lithium (China) e IGO (Austrália), com a Tianqi detendo 51% e o controle decisório sobre o financiamento. O projeto, iniciado em 2025 com um investimento inicial de 1 bilhão de dólares, obteve uma licença para a produção de hidróxido de lítio válida até 2046. No entanto, apesar do compromisso declarado de reduzir a dependência da China, a tecnologia operacional e a propriedade do minério de Greenbushes – um dos maiores depósitos de lítio do mundo – são controladas por uma entidade chinesa.

O governo australiano assinou um acordo estratégico com os Estados Unidos em 2025 para a segurança da cadeia de suprimentos de minerais críticos, com um investimento conjunto de 3 bilhões de dólares. O documento reconhece que a China controla 90% do mercado global de terras raras pesadas (HREE), mas não menciona projetos específicos de refino de lítio. Essa omissão é significativa: enquanto se promove uma aliança para reduzir a dependência chinesa, a refinaria de Kwinana – o esteio do programa australiano – é administrada por uma empresa chinesa com tecnologia e controle operacional consolidados.

A refinaria registrou um lucro líquido negativo de 28,7 milhões de dólares no trimestre de junho de 2025, nunca gerou um excedente de caixa em 12 meses e sofreu problemas mecânicos desde 2021. A Tianqi anunciou em 2025 que priorizaria a “viabilidade de longo prazo” do projeto, investindo 1,2 milhão de dólares e declarando um custo unitário de 406 dólares por tonelada para a produção de espodumênio. No entanto, o custo efetivo não foi publicamente verificado, e nenhum relatório posterior a outubro de 2025 explica as razões da queda na rentabilidade.

Outras iniciativas mostram a mesma dinâmica. A Pilbara Minerals firmou um acordo com a Ganfeng Lithium para uma planta de conversão de lítio com capacidade de 32.000 toneladas/ano, localizada na Austrália. O projeto utiliza tecnologias de conversão desenvolvidas na China, mas não foi esclarecido se a licença tecnológica foi concedida diretamente pela Ganfeng ou por uma entidade afiliada. A MinRes e a Ganfeng investiram 300 milhões de dólares no projeto Mt Marion, com 150 milhões de cada parte. O documento não especifica quem detém a tecnologia operacional.

O projeto piloto da Pilbara Minerals com a Calix Ltd., baseado na tecnologia patenteada de “calcinação”, foi planejado em 2025. No entanto, não está claro se a patente foi desenvolvida na Austrália ou foi adquirida por uma empresa chinesa. O governo australiano renovou a licença para a Kwinana Lithium Hydroxide Refinery em 2025, apesar de preocupações com a saúde e o odor. Nenhum relatório público explica por que a licença foi renovada, apesar dos problemas ambientais e operacionais.

A presença de empresas chinesas em projetos estratégicos australianos é constante: a Tianqi detém 51% da joint venture Greenbushes com a Albemarle e administra a refinaria de Kwinana. A Albemarle fechou sua refinaria em Kemerton em 2026 devido a custos elevados e concorrência chinesa. O governo australiano investiu mais de 3 bilhões de dólares em colaborações estratégicas para reduzir a dependência chinesa, mas não revelou quais projetos foram excluídos ou quais tecnologias foram tornadas independentes.

A contradição é evidente: enquanto se declara o objetivo de reduzir a dependência da China, os projetos-chave são administrados por empresas chinesas com tecnologias e licenças controladas por entidades estrangeiras. A refinação de lítio na Austrália parece, portanto, um sistema em que a independência estratégica é declarada, mas a tecnologia e o controle operacional permanecem nas mãos chinesas. Nenhuma fonte explicou por que esse modelo é considerado sustentável ou estratégico.

Projeto Parceiro chinês Investimento Tecnologia ou licença Status operacional
Kwinana Lithium Hydroxide Refinery Tianqi Lithium 1 bilhão de dólares Licença renovada até 2046; tecnologia não especificada Prejuízo líquido desde junho de 2025; problemas mecânicos persistentes
Projeto Mt Marion Ganfeng Lithium 300 milhões de dólares (cada) Tecnologia não especificada Investimento concluído; status operacional não declarado
Projeto Pilbara-Calix Não especificado Não disponível Tecnologia de “calcinação” patenteada Planejado em 2025; status de andamento não esclarecido
Acordo Pilbara-Ganfeng Ganfeng Lithium Não especificado Capacidade de 32.000 toneladas/ano Acordo assinado; status operacional não declarado

A refinação de lítio na Austrália parece um sistema em que a dependência tecnológica da China é mantida, apesar das declarações de independência. A presença de empresas chinesas em projetos-chave, o controle das licenças e a falta de transparência sobre os custos e a tecnologia operacional criam um cenário em que a segurança estratégica é declarada, mas não verificável.


Refino de lítio no Chile: tecnologias chinesas, acordos condicionados e declarações de autonomia

O governo chileno anunciou uma estratégia nacional para o controle estatal da produção de lítio, mas não forneceu um plano concreto para desenvolver tecnologias de refino independentes. A joint venture Codelco-SQM, aprovada pela reguladora antitruste da República Popular da China (SAMR) em 10 de novembro de 2025, foi condicionada à garantia de um volume mínimo de 300.000 toneladas de carbonato de lítio por ano para clientes chineses. O governo chileno não revelou se o HCL importado da China pela Codelco faz parte de um sistema integrado que possa implicar dependência técnica a longo prazo. As exportações chilenas de carbonato de lítio para a China representam entre 45% e 70% do total entre 2021 e 2024, com um aumento significativo em relação a 24,8% em 2013. Apesar das declarações oficiais de autonomia estratégica, o governo chileno não apresentou um plano concreto para o refino de lítio.

A Albemarle apresentou um projeto de extração direta de lítio (DLE) no Salar de Atacama com um investimento de US$ 3,1 bilhões, que prevê uma capacidade de produção de 233.000 toneladas métricas de carbonato de lítio equivalente em 2025. O projeto, em avaliação ambiental, prevê a recuperação de 90% da salmoura tratada e uma redução no consumo de água doce. No entanto, não foi especificado se a tecnologia DLE utilizada foi desenvolvida em colaboração com empresas chinesas.

A colaboração entre a SQM e a Salinity Solutions (Reino Unido) para um piloto de tecnologia de engenharia em água envolveu um investimento de US$ 1,27 milhão por parte da SQM Lithium Ventures. O projeto foi apresentado como inovador, mas não foi esclarecido se as tecnologias experimentadas podem ser integradas em um sistema de refino chinês ou foram projetadas para evitar dependências externas.

As exportações chilenas de carbonato de lítio para a China representam entre 45% e 70% do total entre 2021 e 2024, com um aumento significativo em relação a 24,8% em 2013. O Tratado de Livre Comércio entre Chile e China facilitou o acesso ao mercado chinês, mas não previu restrições sobre o uso de tecnologias chinesas para o refino.

Apesar das declarações oficiais de autonomia estratégica, o governo chileno não apresentou um plano concreto para o refino de lítio. Pelo contrário, os projetos-chave parecem estar condicionados por decisões do mercado chinês, com obrigações de fornecimento e condições de não discriminação. A tecnologia chinesa está presente em projetos-chave, mas não é mencionada explicitamente como parte do sistema de produção. A ausência de uma estratégia tecnológica nacional deixa em aberto a questão de quem controla efetivamente o valor agregado do lítio chileno.


O controle chinês sobre a cadeia de suprimentos de lítio se consolidou por meio de uma combinação de aquisições estratégicas, aprovações regulatórias condicionadas e restrições à exportação de tecnologias-chave. A Tianqi Lithium, empresa chinesa, detém 23,77% das ações da SQM no Chile e 51% da mina de Greenbushes na Austrália, posicionando-se como um ator central na produção global de lítio bruto. O depósito de Atacama, administrado pela SQM, contém 1,7 bilhão de toneladas de lítio em equivalentes de carbonato (LCE), enquanto Greenbushes possui 2,1 bilhões de toneladas de LCE. De acordo com declarações oficiais chinesas, pelo menos 60% da capacidade de refino não chinesa depende de tecnologias desenvolvidas na China. No entanto, nenhuma fonte pública especifica quais empresas chinesas fornecem licenças para o refino na Austrália ou no Chile. O Ministério do Comércio da China atualizou o catálogo de tecnologias proibidas à exportação em 2025, incluindo processos de extração de lítio de salmoura, produção de carbonato e hidróxido de lítio, bem como tecnologias de purificação de soluções salinas e líquidos contendo lítio. Essas restrições abrangem toda a cadeia produtiva, do minério bruto ao metal de lítio.

O governo chinês impôs condições à aprovação da joint venture Codelco-SQM no Chile, anunciada em 11 de novembro de 2025 pela Comissão Nacional para a Regulação do Mercado (SAMR). A aprovação foi condicionada à garantia de acesso estável ao lítio para clientes chineses, com preços não superiores a 15% do preço de referência internacional. O Ministério da Indústria e Tecnologia da Informação da China também aprovou padrões tecnológicos para o refino de lítio em 2026, com especificações para processos de separação e purificação de alta eficiência, incluindo cristalização, membranas e metalurgia de ciclo fechado. Tais padrões não mencionam empresas ou projetos estrangeiros, mas indicam uma clara orientação para a homogeneização tecnológica da cadeia.

O lucro líquido da Tianqi Lithium em 2025 foi de 463 milhões de yuans, com um aumento de 105,85% em relação a 2024. 40% do lucro foi atribuído à receita proveniente da SQM, apesar de a empresa ter anunciado a venda de 1,25% das ações da SQM até fevereiro de 2026. A transição da gestão da SQM para a Codelco está prevista para 2031, com um acordo que prevê um aumento de 30% na capacidade de produção de carbonato de lítio até essa data. No entanto, não está claro se essa expansão será realizada com tecnologias chinesas ou com parcerias alternativas.

De acordo com a Agência Internacional de Energia (AIE), a China detém 73% do mercado global de lítio refinado em 2024 e prevê superar a Austrália na produção de lítio até 2026. A Austrália, com 43% da produção mundial em 2025, é o principal produtor de lítio bruto, mas sua capacidade de refino é limitada. O governo chinês promoveu a participação de empresas chinesas em projetos estrangeiros, como o caso da Tianqi no Chile, por meio de políticas de desenvolvimento estratégico. No entanto, não foi divulgado se esses projetos incluem transferências de tecnologia ou licenças operacionais.

A China possui um depósito de lítio de rocha granítica em Hunan com 490 milhões de toneladas de minério e 1,31 milhão de toneladas de óxido de lítio. A indústria chinesa também aprovou padrões tecnológicos para o refino de lítio em 2026, com processos que reduzem o consumo de energia e as emissões de CO2. No entanto, nenhum documento oficial especifica quais instalações estrangeiras obtiveram licenças para aplicar esses padrões.

De acordo com a Ganfeng Lithium, a demanda por lítio poderá aumentar em 30-40% em 2026, com os preços do carbonato de lítio podendo atingir 200.000 yuans/tonelada. Nesse contexto, o controle chinês sobre o refino e a tecnologia parece não apenas estratégico, mas também operacional. No entanto, não está claro se as empresas chinesas forneceram licenças para o refino na Austrália ou no Chile, nem quais projetos estrangeiros têm acesso a tecnologias proibidas à exportação. As autoridades chinesas e os principais atores não divulgaram as modalidades de transferência tecnológica.


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